Archive for dezembro, 2008

2009? Terrorismo internacional em alerta vermelho

terça-feira, dezembro 30th, 2008

O aumento das incertezas em 2009 não vai estar restrito à economia. Não está descartada a intensificação das ações terroristas que podem produzir um ambiente geopolítico internacional de alta incerteza e insegurança. Conflitos nacionais e internacionais, que têm estado latente por décadas a fio, podem ser acesos pela centelha de ações terroristas. O terror poderá gerar como conseqüência guerras civis, como no Líbano, e guerras entre países como Índia e Paquistão, Israel e Irã, etc.

Os atentados recentemente ocorridos na Índia caracterizam um novo padrão tático preocupante que vem se juntar aos padrões de ações anteriores espetaculares e de alto impacto iniciadas com o 9/11. O grupo de pistoleiros, que desembarcou em um pequeno porto de pescadores em Mumbai e que acabou por provocar a morte de quase 200 pessoas, mostra que a caixa de ferramentas do terror está plena de inovações.

Os comandos fundamentalistas radicais, mesmo sob forte pressão e combate através da cooperação multilateral internacional tanto em termos de inteligência quanto de ações policiais e militares, demonstram uma crescente vitalidade, criatividade e capacidade de organização. Em 2009 não podem ser descartados novos tipos de ações espetaculares, incluindo até mesmo o uso de bomba suja nuclear no coração dos EUA ou de outros países da UE.

O aprofundamento e a extensão da depressão econômica terão como a mais perversa das conseqüências um devastador crescimento do desemprego e isso, em um mundo que tem atualmente mais de 200 milhões de imigrados vivendo nos países mais afluentes, deverá gerar um ambiente particularmente negativo para os estratos mais humildes de imigrantes. Nesse perigoso contexto a intolerância racial e cultural vão estar contribuindo, perigosa e criticamente, para o florescimento de mais ressentimentos e sentimentos de exclusão, que são muito bem capitalizados pelos grupos radicais locais e internacionais.

Os líderes tanto das organizações terroristas quanto dos países que são santuários e simpáticos à agenda do terror certamente analisam os primeiros meses de Barack Obama como presidente dos EUA como um momento oportuno para confrontar e testar a capacidade de liderança da nova administração em lidar com essa crucial agenda.

E a China? Como vai se posicionar frente aos desafios neste confuso mundo que emergirá em 2009? E a Rússia?

2009? O vínculo de contratação contrai em número e se transforma

domingo, dezembro 28th, 2008

Uma das tendências para o ano de 2009 será – pode apostar com certeza! – uma drástica redução do número de empregos que serão gerados. As empresas em termos de funcionários, no geral, vão encolher. Em princípio, meu palpite é de que vaí ser algo entorno entre 10 e 20%.

Mas essa já era uma tendência e a crise iniciada em 2008 vai acirrar ainda mais essa perspectiva no ano que vem. Desde os anos 80, os avanços da tecnologia de informação e o aumento da competição global foram obrigando as empresas a se tornarem cada vez mais eficientes. Práticas como a reengenharia tornaram-se verdadeiros mantras em administração de empresas no desafio de fazer mais com menos. Esse “com menos” quer dizer também com menos gente.

No fim do túnel da crise, as empresas vão se tornar ainda mais eficientes aprendendo novas maneiras de produzir mais, com menos gente. Isso vai consolidar uma nova correlação entre crescimento do PIB e a geração de empresas conforme a representação gráfica abaixo.

 

 

Nas décadas seguintes deste século XXI as novas gerações deverão ir se acostumando com uma nova modalidade de vínculo de contratação de trabalho: o “projeto”. Essa modalidade de contratação vai substituir o vínculo predominante do século XX, que foi o “emprego”.

 

É por essa razão que, provocativamente, no meu livro Novo Mundo Digital (Ediouro 2007),  eu subtitulei o capítulo sobre Trabalho na Era Digital da seguinte maneira:

 

Emprego:
você vai perder o seu; seu filho não vai achar;
seu neto vai achar graça dessa história de emprego.

2009? Sobretudo: tempo de pensar fora da caixa!

sábado, dezembro 27th, 2008

 

“Foi o melhor e o pior dos tempos, a idade da sabedoria e da insensatez, a era da fé e da incredulidade, o Século das Luzes e a Estação das Trevas, a primavera da esperança e o inverno do desespero.”

 

Assim Charles Dickens começava seu romance intitulado O conto de duas cidades, uma novela eletrizante, que se alterna entre Londres e Paris, e que tem lugar nos anos que precedem e que desembocam na Revolução Francesa. 

 

“Tínhamos tudo e nada tínhamos, íamos todos diretamente para o Céu, ou íamos em direção diametralmente oposta”.

 

Assim continuava Dickens, de um jeito que você deve identificar adequado também para descrever os nossos momentos maníaco-depressivos atuais. Mas, devemos nos preparar para mais frenéticos acontecimentos e transformações.

2009 não será mole! O ano que vem aí será um tempo marcadamente caórdico, uma mistura de brutal queda de braço entre o caos e ordem. Aí daqueles que fazem da busca da segurança seu objetivo de vida! Qualquer estratégia que pretenda retomar à “normalidade” das décadas finais do século XX estará destinada ao fracasso. Alternativamente, tenho convicção, este será o tempo fecundo para novos aventureiros, sobretudo, aqueles que são mais imaginativos para inovar e mais flexíveis para mudar.

 

Entramos em um turning point e 2009 deverá tomar significado
como o início por excelência de um “tempo para pensar fora da caixa”. 

 

Tanto como ser humano como estrategista de organizações adquiri plena consciência da ilusão que representa concentrar esforços em fazer projeções. A vida é um processo, um fluxo, incerto e indeterminado. E isso, paradoxalmente, é uma das maiores bênçãos e riquezas da própria vida. No entanto, julgo eu, refletir sobre o devir, pensando modestamente em identificar tendências prováveis é um investimento que vale a pena. Sendo assim nos meus próximos posts desta virada de ano pretendo compartilhar aqui algumas de minhas reflexões.

As coisas pretas também no coração do Vale do Silício

segunda-feira, dezembro 22nd, 2008

Tentando conseguir uma trégua no meio do mar de incertezas que domina o mundo inteiro, CEOs que comandam as mega-empresas como HP, Cisco, AMD, Dell, Texas e muitas outras que lideram o mundo dos negócios a partir de seus QGs no Vale do Silício estão programando parar no período entre 22 de dezembro e 5 de janeiro.

Esse tipo de recesso, comum no Brasil entre Natal e Ano Novo, não é rotineiro naquela região. A justificativa feita por um dos executivos entrevistados por um repórter do jornal inglês Financial Times é de que é necessário dar um tempo para tomar fôlego. Sem admitir ser identificado, ele teria dito que “cara, as coisas estão realmente feias por aí” (”man, it is ugly out thereWink. A matéria completa pode ser lida clicando aqui

Acho isso um indicador de que a atual geração de líderes é boa apenas quando o mar está manso. Um contraponto tão preocupante quanto as promessas irrealistas que começam a ser feitas por Obama e em sintonia com as gabolices que nosso presidente Lula tem alardeado.

Quando eu era criança valia tentar fugir do medo cobrindo a cabeça com o cobertor ou então dizer mentiras para mim mesmo. Agora que sou adulto, compreendo que os verdadeiros líderes não são embromadores e tratam as pessoas como adultas. São como Winston Churchil, que ao assumir como primeiro-ministro do Reino Unido para chefiar a resistência contra o nazismo, em momento crítico quando o restante da Europa já estava de joelhos frente a Hitler, teve a coragem e a honestidade de dizer:

“Não tenho nada para oferecer, apenas sangue, trabalho, lágrimas e suor”.

Os economistas estão se tornam inovadores. Cuidado!

quarta-feira, dezembro 17th, 2008

 

Os economistas, de forma unânime, agora se declaram keynesianos desde criancinha e assim sustentam que a hora é de governos de todo o mundo torrarem o suado dinheiro do contribuinte nas mais variadas direções. Futuramente vamos lamentar muito a maior parte dessa gastança, feita às pressas, atabalhoadamente e com pouca transparência. Muito desse dinheiro vai parar em mãos mais espertas que necessitadas.

Seguindo as exortações de seus pares, o sumo-sacerdote Ben Bernanke, presidente do FED, resolveu inovar e criou o juro zero. Martin Wolf, colunista do FT, prevê que a próxima inovação deverá ser o helicóptero de dinheiro. Como os bancos centrais deverão acelerar a impressão de papel-moeda, jogar dos céus o dinheiro diretamente em cima da população será uma forma mais eficiente de agir contra a recessão que vai se tornando depressão mundial.

 

Acho que vamos ter algo por aí na linha daquela piada da junta médica
que anuncia que a operação foi um sucesso,
mas que, infelizmente, o paciente morreu.

 

De fato, só um tolo ou um cínico para não admitir que estamos diante da depressão e que as respostas velhas não respondem perguntas novas. Porém as inovações que necessitamos não estão no território das pajelanças de macroeconomia. Não é apenas mais uma crise do capitalismo. Nosso sistema global atual não vive meramente uma crise financeira. Vivemos as dores e desafios da sustentabilidade global do desenvolvimento do conjunto das nações. Achar as novas respostas pode nos empurrar para uma era muito mais cheia de oportunidades de desenvolvimento humano do que a mera continuidade de crescimento econômico.

Ainda que necessitemos de inspiração vinda de tempos passados, não creio que as melhores lições venham da Grande Depressão de 1929. Em minha opinião, é mais inspirador focalizar as reflexões na forma com que países, como os EUA, souberam mobilizar uma enorme energia criativa e produtiva para enfrentar o desafio da entrada na II Guerra Mundial.

 

Você sabia, por exemplo, que, entre 1942 e 1945,
não foi produzido nenhum automóvel de passageiros nos EUA?

 

Nesse período o setor automotivo foi totalmente redefinido. Passou a ser um fornecedor do estado tendo em vista a necessidade e a prioridade imperiosa e absoluta de produzir tanques, navios, aviões, submarinos e veículos blindados. Vencida a Guerra, foi fácil fazer a reconversão das linhas produtivas para os tempos de paz.

Os economistas fechados, em seus esquematismos de análise e teoria macroeconômica, não conseguem pensar fora da caixa e divisar novas oportunidades, que implicam rupturas com o passo-a-passo que eles estão acostumados. É por isso que é chegada a hora dos líderes políticos, dos analistas da mídia, da opinião pública visualizarem novos horizontes e fazerem novas escolhas estratégicas. Economistas devem ser ouvidos da mesma forma com que um empreendedor ouve o seu contador.

É tempo de inovação e mudança. A grande ruptura começa com o abandono da visão preguiçosa e estreita de que o crescimento econômico é capaz de funcionar como a mola mestra do desenvolvimento humano. Perdemos o sentimento de que o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas subordinado a uma perspectiva muito mais ampla e multidimensional de desenvolvimento humano e social.

 

A arte de articular grandes e inovadoras visões estratégicas?

 

A mobilidade urbana, por exemplo? Não precisamos aumentar a frota de carros particulares na velocidade de 75 milhões de veículos novos por ano. Os analistas do setor aumotivo estimavam que a frota atual, hoje em um bilhão de unidades, iria dobrar até o final da próxima década. O planeta nem nossas cidades aguentariam essa progressão insana. Precisamos de melhores sistemas de transportes públicos. E a frota individual deve ser totalmente reconceptualizada: precisamos de veículos mais eficientes e movidos a combustíveis ambientalmente sustentáveis.

Isso nos leva a outro desafio que viemos postergando a mais de cinqüenta anos: é tempo de encarar as grandes oportunidades de fazer a passagem para a Era Pós-Combustíveis Fósseis. O tempo é de fazer um chaveamento na direção das energias renováveis – eólica, solar, biocombustível, aumento da eficiência e conservação de energia. A energia nuclear, o petróleo e o carvão podem e devem pertencer ao passado da humanidade, tanto quanto as pirâmides egípcias.

É tempo de abandonar o paradigma de crescimento do setor imobiliário correlacionado a produção de mais metros quadrados novos, sobretudo em espaços de baixa densidade urbana e isolados do tecido urbano já consolidado. Além disso, a humanidade nos países plenamente industrializados – e aqui o Brasil se inclui – já está invertendo a curva de crescimento vegetativo. Está envelhecendo e reduzindo em número. O novo paradigma de crescimento sustentável para o setor imobiliário é o do upgrade e da revitalização dos prédios e casas que estão envelhecidos e obsoletos no coração das nossas cidades tradicionais e da requalificação dos loteamentos e comunidades de baixa renda.

O sistema escolar está caindo de pobre em todas as latitudes do planeta e não qualifica virtualmente mais ninguém para a Era da Economia do Conhecimento. Apenas transforma os jovens em zumbi-procuradores-de-emprego. A escola deste início de Terceiro Milênio ainda se assemelha mais à escola do tempo da palmatória do que do tempo do notebook e da internet. Essa é uma das razões porque os jovens na Grécia estão se revoltando contra o sistema e isso pode se alastrar mundialmente, como em 1968.

A infraestrutura – energia, saneamento, mobilidade, etc. — de nossas cidades tem mais de um século e é totalmente obsoleta. Além disso, é tempo de criar espaços de mais qualidade para a vida humana urbana, como parques, jardins e áreas verdes.

Nossos sistemas públicos de saúde são arcaicos e de baixa produtividade. Não existe nenhum país do mundo onde os cidadãos e contribuintes estejam satisfeitos com aquilo que os governos entregam. Há muito que se fazer aqui em termos de inovação e evolução.

A segurança pública, tanto a do cotidiano urbano quanto a segurança internacional geopolítica e a luta contra o terrorismo; e da mesma forma no caso do aperfeiçoamento da governança, isto é, a maior transparência da política, tudo isso impõe igualmente a necessidade de novas respostas.

Esses exemplos são algumas das grandes oportunidades que estão batendo na porta e que vão começar a berrar na nossa cara:

“É hora de mudar. Chega do mais do mesmo!”!

Insustentabilidade: um dia a casa cai…

domingo, dezembro 14th, 2008
O Desmonte do American Way of Life?

O Desmonte do American Way of Life?

 

Lembro-me nos meus tempos de mestrado, ali nos meados dos anos 80, que alguns colegas especialistas em análise de estratégia geopolítica ousavam prenunciar que a URSS iria se esfacelar. (Nenhum deles era economista, diga-se de passagem.) Naquele tempo, quando nenhum dos analistas da mídia sequer cogitava uma hipótese como essa, alguns desses meus colegas já apostavam que a máquina soviética ia travar nas proximidades do ano 2000. Travou e se esfacelou antes disso: o muro de Berlim caiu no dia 19 de novembro de 1989.

 

A hipótese desses colegas se baseava em seu entendimento de que a dinâmica da Guerra Fria vinha exigindo muito mais da vitalidade e da capacidade do estado e da sociedade soviética do que era exigido dos EUA e de seus aliados. Os EUA, sobretudo, tinham encontrado uma forma muito mais sustentável e de longo prazo para desenvolver suas forças produtivas, tanto para atender as demandas civis quanto para, ao mesmo tempo, desenvolver e manter uma mega-máquina de guerra.

 

Na URSS a prioridade militar-tecnológica gerou uma dinâmica insustentável. Essa dinâmica acabou por exaurir até a última gota de vitalidade da sociedade soviética, o que aconteceu justamente na Era Reagan, quando o projeto Guerra nas Estrelas colocou o desafio em um novo e mais alto patamar. Foi quando então ficou evidente que o estado soviético, cego pelo esforço militar, nem mesmo pão conseguia produzir em quantidade suficiente para a sociedade.

 

A análise da sustentabilidade é uma das mais importantes maneiras de procurar avaliar as perspectivas de futuros, seja para ecosistemas, seja para organismos, para civilizações, para nações, e até mesmo para empresas, setores produtivos e negócios de forma geral. Nem todo mundo é muito ligado em análises de sustentabilidade. Porém o senso comum sabe que é preciso cuidado com certas coisas na vida, senão “um dia a casa cai”.

 

O gráfico reproduzido acima faz parte de uma excelente série que está saindo no New York Times. Essa série mostra que a crise econômica iniciada nos EUA tem raízes profundas na cultura e forma de viver dos americanos. Existe algo de podre que se entranhou no DNA american way of life desde o final da II Guerra e que só agora se revelou. O resumo da ópera é que o americano médio se viciou em crédito fácil, vindo, sobretudo, da hipoteca de suas casas. Além disso, as pessoas esqueceram o saudável hábito de poupar. Como tolos participantes de uma corrente da felicidade acreditaram que isso podia ser mantido indefinidamente. Um dia a casa caiu. Melhor dizendo: as hipotecas começaram a ser executadas e os bancos, que ofereceram essas operações, perceberam que não existia dinheiro para realizar a quitação de boa parte dessas hipotecas…

 

Quando o presidente Lula convoca as pessoas a gastarem como remédio contra a crise, ele reproduz a irresponsabilidade dos presidentes americanos, que sempre mandaram as pessoas irem às compras como receita para colocar a economia do país nos trilhos.

 

Aqui no Brasil é também um mal caminho a redução de impostos sobre bens que não são de primeira necessidade e que fazem parte de um modelo de desenvolvimento insustentável – como automóveis, por exemplo. Esse e outros erros que estão sendo cometidos mostram como os líderes políticos, desta geração e mundialmente, embalados pelas arengas de economistas, ainda estão longe de entender que a compreensão da sustentabilidade é muito mais crucial e importante que macroeconomia para a arte de governar.

  

NYT: Não perdeu o emprego? Economize assim mesmo!

quinta-feira, dezembro 11th, 2008

 O post de hoje faz parte da série “deve ser horrível viver num país assim…” O país, nesse caso, são os Istaduszunidos (era assim mesmo que eu me referia ao próprio quando criança). O fato é o artigo muito revelador que você ainda pode ler na íntegra no bom e velho New York Times clicando aqui. Em resumo, o artigo traz uma série de dicas para aqueles que não perderam o emprego.

A colunista Eilene Zimmerman – uma espécie de Max Geringher de lá – insiste que os tempos serão de economizar em tudo, a começar pela comida consumida fora de casa. Por exemplo, o almoço e os lanchinhos devem ser levados de casa. A articulista propõe abandonar o hábito de ida às cafeterias tipo Starbucks. Quem costuma fazer isso na parte da manhã e do final da tarde, pode economizar até US$1,500 por ano. Compre uma cafeteria elétrica e leve para sua sala, recomenda a articulista.

Ela propõe cortar a academia de ginástica, apesar de reconhecer que esse é um investimento de longo prazo em sua saúde. Mas se o problema é combater o sedentarismo e economizar, troque a academia por andar ou correr na rua.

Não renove o guarda-roupa. Adote um estilo menos fashion e mais simples para ir trabalhar. Estenda a vida útil dos seus sapatos mandando fazer meia-sola. Considere comprar suas roupas em lojas de segunda mão. Proponha aos amigos organizar uma “festa de troca de roupa”. Antes que você se confunda com minha tradução, esclareço que o objetivo da festa é reunir amigos interessados em permuta de roupas que estão meio esquecidas nos guarda-roupas ou porque as pessoas enjoaram das mesmas. 

É aconselhado também deixar de lado o hábito de estar sempre atualizando sua tecnologia de informação pessoal (PC, celular, câmaras, etc.) e adotar máquinas mais baratas e menos sofisticadas, sem esquecer de pesquisar onde se encontram barganhas e descontos.

A articulista recomenda também que, nesse princípio de ano, quando as pessoas planejam a (re)contratação de seus planos médicos e de saúde, é importante considerar a possibilidade de ampliar o desconto no imposto de renda e simultaneamente buscar planos mais baratos. 

Veja bem: essas são recomendações para leitores do NYT que não ficaram desempregados.  E para o resto dos americanos que vai ver a coisa preta? Será que o Obama vai pedir ao Lula a nossa expertise no bolsa-família?

Como diz o Ancelmo Gois, colunista d’O Globo: “deve ser horrível morar num país assim”! (Já passei um e-mail para ele dizendo que estou usando seu excelente bordão!)

 E você? Já considerou como vai ser o Natal? Vai ser o Natal das lembrancinhas ou vamos enfiar o “pé na jaca”, como está aconselhando nosso presidente?

“Pensar fora da caixa” versus “Cada um no seu quadrado”

quarta-feira, dezembro 10th, 2008

Essas são ambas expressões muito usadas atualmente que conversam entre si, ainda que cada uma delas aponte em sentido diametralmente oposto. Cada um no seu quadrado ganhou força na brincadeira que apareceu retratada no Youtube. São cenas de três pessoas grotescamente caracterizadas com malhas de ginástica – uma mulher gorda, uma anã e um rapaz esquálido – que rebolam de forma constrangedora dentro de um quadrado. Milhões de pessoas, sobretudo adolescentes e crianças cruéis, acham isso muito engraçado. Tudo bem! Afinal a diversidade humana é estarrecedora. Até pessoas sendo devoradas por feras e outras obrigadas a se matarem mutuamente já foi considerado uma forma de entretenimento, como no caso do grande circo no tempo do Império Romano.

No mundo corporativo cada um no seu quadrado tem sido expressão muito usada como demarcação de território, como uma espécie de atualização da antiga expressão “cada macaco no seu galho”. Pena! O isolamento e a demarcação rígida traduzem uma reação psicológica e um comportamento de indivíduos que estão, antes de mais nada, atordoados e em desconforto em um mundo no qual a humanidade se planetariza, onde as barreiras e fronteiras são disssolvidas e onde a mudança acelerada passa a ser a maior certeza. Neste admirável bravo novo mundo digital, mais complexo e mais interdependente, tanto de forma cognitiva quanto de forma colaborativa, o tempo é de agir e pensar fora da caixa

O sentido da expressão pensar fora da caixa é amplamente conhecido, mas creio que pouca gente sabe de onde ela veio. Parece que essa expressão ganhou reconhecimento público mundial por força de psicólogos desenvolvendo pesquisas cognitivas e sobre o comportamento de pessoas tentando entender por quê, nós humanos, acabamos seguindo muitas vezes um padrão dominante que nos é imposto – muitas vezes por nós mesmos! – e que impede de achar soluções mais criativas e mais eficazes. O teste a seguir foi o que, especificamente, deu origem a expressão pensar fora da caixa. Veja como é. Tente unir todas os pontos dentro da caixa abaixo desenhando quatro segmentos de linhas retas e sem tirar o lápis do papel. Parece meio difícil depois de algumas tentativas, não é? 

O que os psicólogos descobriram é  que se você sair do seu quadrado as coisas ficam mais fáceis de resolver. Experimente. Olhe para o problema com outros olhos: apague as bordas da caixa, como na figura abaixo.

A partir daí nossa percepção salta para um outro nível, menos limitado e mais aberto. Passamos literalmente a pensar fora da caixa, fora do quadrado a que estávamos confinados. Agora é muito fácil de enxergar rapidamente possíveis soluções. Por exemplo, a da figura abaixo

 

Os psicólogos constataram que as pessoas que tomam a iniciativa de ignorar a moldura do desenho certamente levam vantagem como solucionadores de problema. Este é um teste que muitas empresas de consultorias usam para contratar seus analistas. Um bom consultor de estratégia é um cara que tem flexibilidade para se abstrair dos quadrados, representados pelas rotinas e dia-a-dia das empresas. Quando um consultor de estratégia fica muito focado em um setor ou cliente aos poucos ele perde a capacidade cognitiva que é cultivada em generalistas. Ele vai perdendo a capacidade de fazer abstrações criativas e se torna…um especialista.

 

Na minha opinião, a crise atual não é uma crise somente. Nos últimos meses venho trabalhando, refletindo, pesquisando e escrevendo sobre isso, advogando que se trata de uma mudança de era; de uma transição que exige novas respostas. Não vamos ter “de volta ao normal” como espera a maior parte dos políticos e economistas. Infelizmente os líderes tradicionais, que supostamente deveriam nos tirar para fora do ciclone, têm em sua maioria uma forma velha e limitada de pensar soluções.

 

Por exemplo, Ben Bernake, o presidente do FED, o Banco Central dos EUA, tem como uma de suas credenciais o fato de ter sido ao longo de toda sua vida acadêmica uma das maiores autoridades mundiais acerca da crise de 1929. Sabe o que isso representa? Pouca coisa, além de cultura geral. Vai por mim: essa experiência mais atrapalha do que ajuda. Como a caixa do nosso teste de bolinhas.

 

Tenho livro novo vindo aí. Smile

 

Está no prelo da Editora Campus/Elsevier e está programado para ser lançando em março de 2009. O título foi escolhido no dia de ontem pelo Conselho Editorial da Campus e ficou assim:

 

TEMPO DE PENSAR FORA DA CAIXA

A grande transformação das organizações rumo à Economia do Conhecimento

 

Toda vez que um original de minha produção aterriza na mesa de meu editor e ganha o ok para ir para o prelo, eu começo uma peregrinação para falar de minhas reflexões nesse livro. Pode ser em palestra, pode ser um papo com amigos, pode ser uma pauta de entrevista, comentários, artigos, pode ser na TV, no rádio, nos jornais, nas revistas. Mesmo que meu livro ainda vá demorar um pouquinho para chegar às livrarias, para mim já é hora de começar a falar no Tempo de Pensar Fora da Caixa. E são bem-vindos os convites para falar do mesmo em situações concretas e reais.

Da série as baleias encalhadas – A festa acabou no setor automotivo, diz o CEO da FIAT

terça-feira, dezembro 9th, 2008

Se alguém se interessa em ver um empresário falando de forma franca, tendo a coragem de admitir que é impossível fazer projeções para os tempos à frente; que admite que a única previsão responsável é que serão duríssimos esses tempos e que as respostas vão ser amargas, não pode deixar de ler a entrevista do CEO da Fiat, Sérgio Marchionne.

Marchionne tinha outro papo ainda há um mês atrás. Dizia que as coisas estavam bem e, referindo-se às operações no Brasil, dizia que a Fiat estava mantendo todos os investimentos para 2009. Pois bem, ontem em entrevista no Automotive News ele contou uma outra história. Mesmo dirigindo a empresa do setor que tem a maior margem de lucro (5,6%), ele admitiu que as montadoras deverão iniciar um processo de fusão porque não existe mais espaço para mais do que cinco ou seis mega-montadoras no mercado.

Enquanto do outro lado do Atlântico GM, Ford e Chrysler conseguiram menos da metade da ajuda pleiteada no Congresso dos EUA. O suficiente para para chegar mal e porcamente até o final do ano. Na Europa, Sérgio é o primeiro CEO a assumir publicamente que a água está chegando até o nariz. Ele teve a coragem de admitir que o seu cargo provavelmente pode ser extinto em breve. As fusões e a revisão radical do modelo de negócios são opções que ele vê para que o setor automotivo não entre em parafuso. Enquanto isso, na Alemanha, a Volkswagen pleiteia para o banco VW uma beirada no pacote de apoio que o governo alemão está concedendo ao setor financeiro naquele país.

Enquanto isso Obama quer dar uma de Papai Noel e diz que não é hora de pensar em déficit no curto prazo. O Wall Street Journal alerta: a conta salgada chega depois de qualquer forma. E o nosso presidente Lula, por sua vez, diz que teremos o melhor Natal de todos os tempos e que é hora de gastar sem se individar…

Novas baleias encalhadas começando a serem notadas? Sem dúvida. Os setores petrolífero e agribusiness. Mas há indícios fortes de que o setor imobiliário e mídia estão encalhando também.

A entrevista do Marchionne você pode ler clicando aqui.

Para descontrair: a foto do post é para lembrar do presidente da Toyota experimentando o novo carro conceitual da Toyota no último salão do automóvel de Tóquio, há alguns meses atrás. Acho que chegou a hora dele!

 

Em lagoa de piranha, jacaré nada de costas…

sexta-feira, dezembro 5th, 2008

Mais um indicador impactante. A previsão que analistas nos EUA estavam fazendo sobre o número de demissões para o mês de novembro era de 340 mil. Pois bem, o  Bureau de Estatísticas do Trabalho dos EUA divulga relatório nesta manhã que constata que a realidade é pior do que era o esperado: são nada menos que 533 mil empregos eliminados no mês passado. Uma subida abrupta no desemprego dessa magnitude foi experimentada apenas em 1974, na época da crise do petróleo.

O clima psicológico nos EUA é muito negativo porque lá as pessoas estão sensibilizadas pela confluência de quatro indicadores chaves. O primeiro é o número que indica a retomada pelas financeiras dos imóveis hipotecados, que já atingiu quase 6 milhões de imóveis desde o princípio deste ano. O segundo indicador é o derretimento da queda do valor das ações em bolsa bem como de outros ativos financeiros. Isso já faz com que a revista The Economist,, em sua matéria de capa que acaba de sair, diga que os últimos dez anos foram perdidos do ponto de vista de aplicações financeiras e poupança. O terceiro indicador é constituído pelo crescente número de empresas que estão quebrando ou em vias de, como os bancos, GM, Ford e Chrysler, e outras cadeias de varejo, como City Circuit, etc. O quarto indicador é número mensal de demissões. Na União Européia, a crise avança rapidamente. Na Alemanha já está em uma recessão sem precedentes deste 1990, ano da reunificação. Em vários países europeus as empresas estão fazendo demissões na casa dos milhares.

Aqui no Brasil a percepção da crise ainda está longe do senso comum.  Matéria da Folha de São Paulo de hoje retrata bem nossa realidade: “sem ser informados sobre o autor da frase, 42% dos brasileiros concordaram, total ou parcialmente, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: ‘Lá fora, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha’. Esse número é de pesquisa do DataFolha divulgada na matéria da Folha. A pesquisa revela ainda que 30% dos entrevistados sequer tem conhecimento dela e 78% acham que o ano de 2009 vai se melhor que 2008. A pesquisa constata ainda que a aprovação do presidente Lula se elevou mais ainda: 70% dos entrevistados atribuem ao governo Lula os conceitos “bom” e “ótimo”.

Diferentemente dos EUA, no Brasil ainda não se materializaram os ingredientes que contribuem para que as pessoas se conscientizem de que a crise financeira virou uma crise econômica devastadora. Aqui a queda das bolsas de valores atingiu, em um primeiro momento, um universo muito restrito, um segmento muito pequeno de nossa população. Além disso, no Brasil não temos o hábito de hipotecar nossos imóveis, ainda que mais de 70% dos brasileiros sejam proprietários de suas residências. Quem “sifu” até agora, como diz nosso presidente, foram só “as elites”.

Em relação às demissões, de minha parte o que tenho constatado é que, no Brasil, desde novembro, essas ainda estão restritas ao topo diretor das empresas. As empresas ainda estão mais focadas em cortar custos, viagens, investimentos. Demissões em massa, por serem tão traumáticas, especialmente no final do ano, virão mais à frente. Por isso, as primeiras demissões têm sido feitas no topo diretor nas empresas. Esse tipo de demissão – cortar no topo – tem a vantagem de ser muito eficiente no curto prazo, pois um diretor custa muito mais do que uma penca de cargos no chão-de-fábrica.  Além disso, não causa um impacto tão negativo no moral da empresa como um todo. Esse tipo de demissão é feito mesmo agora na véspera do Natal.

Para preencher os buracos deixados por executivos demitidos, um dos expedientes adotados pelas empresas é juntar diretorias e colocar diretores para acumular cargos. Um dos exemplos mais corriqueiros é a aglutinação das diretorias de marketing e a comercial. Nessa operação a preferência é reter o pessoal da área comercial, devido aos contatos diretos que esses profissionais mantêm com a clientela.  Um caso mais radical é dar o bilhete azul para dois diretores e promover um superintendente mais novo e que tope ganhar menos. Claro que minha constatação que não tem qualquer valor como amostragem estatística. Afinal de contas é feita com base em conhecimento e relacionamento em minha rede pessoal.

O mundo não vai acabar em 2009 mesmo que a crise bata forte também por aqui. Mas é bom começar a fazer compras de Natal e as resoluções de Ano Novo em clima de austeridade e frugalidade. Os planos de 2009 devem ter opções B e C. Pensando bem, é melhor caprichar na criatividade e considerar também opções D e E… Frown

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