
Os economistas, de forma unânime, agora se declaram keynesianos desde criancinha e assim sustentam que a hora é de governos de todo o mundo torrarem o suado dinheiro do contribuinte nas mais variadas direções. Futuramente vamos lamentar muito a maior parte dessa gastança, feita às pressas, atabalhoadamente e com pouca transparência. Muito desse dinheiro vai parar em mãos mais espertas que necessitadas.
Seguindo as exortações de seus pares, o sumo-sacerdote Ben Bernanke, presidente do FED, resolveu inovar e criou o juro zero. Martin Wolf, colunista do FT, prevê que a próxima inovação deverá ser o helicóptero de dinheiro. Como os bancos centrais deverão acelerar a impressão de papel-moeda, jogar dos céus o dinheiro diretamente em cima da população será uma forma mais eficiente de agir contra a recessão que vai se tornando depressão mundial.
Acho que vamos ter algo por aí na linha daquela piada da junta médica
que anuncia que a operação foi um sucesso,
mas que, infelizmente, o paciente morreu.
De fato, só um tolo ou um cínico para não admitir que estamos diante da depressão e que as respostas velhas não respondem perguntas novas. Porém as inovações que necessitamos não estão no território das pajelanças de macroeconomia. Não é apenas mais uma crise do capitalismo. Nosso sistema global atual não vive meramente uma crise financeira. Vivemos as dores e desafios da sustentabilidade global do desenvolvimento do conjunto das nações. Achar as novas respostas pode nos empurrar para uma era muito mais cheia de oportunidades de desenvolvimento humano do que a mera continuidade de crescimento econômico.
Ainda que necessitemos de inspiração vinda de tempos passados, não creio que as melhores lições venham da Grande Depressão de 1929. Em minha opinião, é mais inspirador focalizar as reflexões na forma com que países, como os EUA, souberam mobilizar uma enorme energia criativa e produtiva para enfrentar o desafio da entrada na II Guerra Mundial.
Você sabia, por exemplo, que, entre 1942 e 1945,
não foi produzido nenhum automóvel de passageiros nos EUA?
Nesse período o setor automotivo foi totalmente redefinido. Passou a ser um fornecedor do estado tendo em vista a necessidade e a prioridade imperiosa e absoluta de produzir tanques, navios, aviões, submarinos e veículos blindados. Vencida a Guerra, foi fácil fazer a reconversão das linhas produtivas para os tempos de paz.
Os economistas fechados, em seus esquematismos de análise e teoria macroeconômica, não conseguem pensar fora da caixa e divisar novas oportunidades, que implicam rupturas com o passo-a-passo que eles estão acostumados. É por isso que é chegada a hora dos líderes políticos, dos analistas da mídia, da opinião pública visualizarem novos horizontes e fazerem novas escolhas estratégicas. Economistas devem ser ouvidos da mesma forma com que um empreendedor ouve o seu contador.
É tempo de inovação e mudança. A grande ruptura começa com o abandono da visão preguiçosa e estreita de que o crescimento econômico é capaz de funcionar como a mola mestra do desenvolvimento humano. Perdemos o sentimento de que o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas subordinado a uma perspectiva muito mais ampla e multidimensional de desenvolvimento humano e social.
A arte de articular grandes e inovadoras visões estratégicas?
A mobilidade urbana, por exemplo? Não precisamos aumentar a frota de carros particulares na velocidade de 75 milhões de veículos novos por ano. Os analistas do setor aumotivo estimavam que a frota atual, hoje em um bilhão de unidades, iria dobrar até o final da próxima década. O planeta nem nossas cidades aguentariam essa progressão insana. Precisamos de melhores sistemas de transportes públicos. E a frota individual deve ser totalmente reconceptualizada: precisamos de veículos mais eficientes e movidos a combustíveis ambientalmente sustentáveis.
Isso nos leva a outro desafio que viemos postergando a mais de cinqüenta anos: é tempo de encarar as grandes oportunidades de fazer a passagem para a Era Pós-Combustíveis Fósseis. O tempo é de fazer um chaveamento na direção das energias renováveis – eólica, solar, biocombustível, aumento da eficiência e conservação de energia. A energia nuclear, o petróleo e o carvão podem e devem pertencer ao passado da humanidade, tanto quanto as pirâmides egípcias.
É tempo de abandonar o paradigma de crescimento do setor imobiliário correlacionado a produção de mais metros quadrados novos, sobretudo em espaços de baixa densidade urbana e isolados do tecido urbano já consolidado. Além disso, a humanidade nos países plenamente industrializados – e aqui o Brasil se inclui – já está invertendo a curva de crescimento vegetativo. Está envelhecendo e reduzindo em número. O novo paradigma de crescimento sustentável para o setor imobiliário é o do upgrade e da revitalização dos prédios e casas que estão envelhecidos e obsoletos no coração das nossas cidades tradicionais e da requalificação dos loteamentos e comunidades de baixa renda.
O sistema escolar está caindo de pobre em todas as latitudes do planeta e não qualifica virtualmente mais ninguém para a Era da Economia do Conhecimento. Apenas transforma os jovens em zumbi-procuradores-de-emprego. A escola deste início de Terceiro Milênio ainda se assemelha mais à escola do tempo da palmatória do que do tempo do notebook e da internet. Essa é uma das razões porque os jovens na Grécia estão se revoltando contra o sistema e isso pode se alastrar mundialmente, como em 1968.
A infraestrutura – energia, saneamento, mobilidade, etc. — de nossas cidades tem mais de um século e é totalmente obsoleta. Além disso, é tempo de criar espaços de mais qualidade para a vida humana urbana, como parques, jardins e áreas verdes.
Nossos sistemas públicos de saúde são arcaicos e de baixa produtividade. Não existe nenhum país do mundo onde os cidadãos e contribuintes estejam satisfeitos com aquilo que os governos entregam. Há muito que se fazer aqui em termos de inovação e evolução.
A segurança pública, tanto a do cotidiano urbano quanto a segurança internacional geopolítica e a luta contra o terrorismo; e da mesma forma no caso do aperfeiçoamento da governança, isto é, a maior transparência da política, tudo isso impõe igualmente a necessidade de novas respostas.
Esses exemplos são algumas das grandes oportunidades que estão batendo na porta e que vão começar a berrar na nossa cara:
“É hora de mudar. Chega do mais do mesmo!”!