Eike Batista no WSJ: “o futuro do Brasil é tornar-se uma commodity powerhouse”
terça-feira, março 30th, 2010Em essência Eike Batista herdou de seu pai, Eliezer Batista, a mesma visão estratégica do regime militar para nosso desenvolvimento: o grande projeto de nação brasileira deve se concentrar em prover uma megainfraestrutura logística para extrair commodities minerais nos mais remotos pontos do hinterland brasileiro e atender a demanda existente de clientes além-mar. O dono das empresas X deixa isso muito claro na entrevista em video no Wall Street Journal, que você pode assistir aí embaixo.
Ele acha que a demanda da China é chave nessa atualização da estratégia da família Batista. Nessa entrevista ele dá como exemplo o fato de que trinta anos atrás isso ocorreu com o Japão, quando esse país deu o salto para se tornar um gigante da economia mundial. Ele sabe disso como ninguém. Afinal aprendeu isso com o Batista pai, a mais estratégica influência em termos de visão do regime militar, tocando uma posição muito especial no comando de uma estatal chamada Vale do Rio Doce.
Como proposta de desenvolvimento para uma nação essa é uma aposta sombria. Eu não gostaria de ver o Brasil tornar-se, no limite, um complexo de extração mineral interligado por uma rede de corredores logíticos totalmente orientado para a demanda de commodities mineiras de grandes mercados.
Produção de commodities e produtos de baixo valor agregado pode ser um ótimo negócio para ricaços . Mas é um modelo incompatível para uma sociedade que se pretende ser mais distributiva, igualitária e capaz de estar em posição de protagonismo global.
O projeto do Batista pai foi tocado na forma de estatais tendo o governo brasileiro como investidor. O projeto do filho é, no fundo, a mesma coisa. Só que atualizado do ponto de vista da fonte de onde jorra o capital. O investidor agora é o mercado, o qual por enquanto está comprando o projeto de Eike. O retorno ainda é uma promessa. E o mercado deve ser paciente com Eike. Isso ele diz na entrevista para o WSJ, quando afirma que todos os projetos são de maturação de médio prazo, pelo menos quatro anos. De qualquer maneira o mercado vai cobrar mais à frente…
O Batista filho pode até chegar a ser o homem mais rico do mundo com essa sua aposta. Porém, por outro lado , ser uma “commodity powerhouse” é uma aposta, que se comprada pelos políticos e pela sociedade brasileira, é o caminho certo para transformar o Brasil em um país de manés, pé-rapados e operadores de máquinas.
Estamos desde o final do século passado acelerando na direção da Economia do Conhecimento. A era na qual estamos adentrando é um tempo onde patentes e direitos de propriedade intelectual – a capacidade de criar o novo — serão ainda mais importantes que o acesso a riquezas naturais e manufatura de commodities.
O projeto da família Batista parece ser bom para seus descendentes. Mas a sociedade brasileira deve entender que a fixação em commodities é o caminho certo para a irrelevância e para a decadência dentro da perspectiva de uma Sociedade Digital Global na qual a inovação passa a ser central, estratégica e crucial.
A inovação é a chave para para conseguir mais competitividade e para criar diferenciais comparativos. E, nesse contexto, o inferno passa a ser o lugar especializado na produção de commodities.
Eike enxerga que a grande oportunidade é nos aparatarmos enquanto país para as necessidades da China, país que deverá ter uma sede de minérios dez vezes maior do que a sede dos japoneses há trinta anos atrás. De certa forma a euforia dos que enxergam o pré-sal como a redenção brasileira também aposta nessa direção.
Devagar com o andor que o santo é de barro. Eu não colocaria todas a fichas nesse futuro!
A “maldição dos recursos naturais” é uma das premissas mais comprovadas na história econômica da humanidade. Riqueza natural em países onde a desigualdade social e o desnível socioeconômico é alto acaba privilegiando sempre uma oligarquia que é jogo duro na partilha e redistribuição dos ganhos das riquezas naturais.
No Brasil já deveríamos saber disso. Afinal, nossa história passa pelo pau-brasil, cana de açúcar, ouro, pedras preciosas, borracha e café e outras cositas do gênero…
O que precisamos apostar alto é em formar gente. Gente de conhecimento. Cada vez mais capacitada para inovar e ser mais empreendedora. E de um ambiente onde o governo seja mais enxuto e menos burocratizado e menos hostil às empresas.
São pessoas de conhecimento altamente inovadoras — e não manés! — que são qualificadas para criar, tocar e desenvolver empresas classe mundial para criar produtos e serviços de alto valor agregado. Exemplos para se inspirar? Olhe para Embraer, WEG, Natura, Odebrecht, Promon, transnacionais verde-amarelas que estão cada vez mais distantes do inferno das commodities.
Essa é a coisa certa a fazer!![]()
